sábado, 7 de maio de 2016

Por que as mulheres não estão loucas

Publicado por Maria Célia Becattini

Gaslighting é uma coisa que você não deveria fazer!


Foto por Maciek Łempicki | flickr.com/emciek/
Você é tão sensível. Tão emocional. Tão defensiva. Você está exagerando. Calma. Relaxe. Pare de surtar! Você é louca! Eu estava só brincando, você não tem senso de humor? Você é tão dramática. Deixa pra lá de uma vez!
Soa familiar?
Se você é uma mulher, provavelmente sim.

Você alguma vez escuta esse tipo de comentário de seu marido, parceiro, chefe, amigos, colegas ou parentes após expressar frustração, tristeza ou raiva sobre algo que eles disseram ou fizeram?

Quando alguém diz essas coisas a você, não é um exemplo de comportamento sem consideração. Quando seu marido aparece meia hora atrasado para o jantar sem avisar – isso é desconsideração. Uma observação com o propósito de calar você – como, "Relaxa, está exagerando" – logo após você apontar o comportamento ruim de alguém é manipulação emocional, pura e simples.


E é esse o tipo de manipulação emocional que alimenta uma epidemia em nosso país, uma epidemia que define as mulheres como loucas, irracionais, exageradamente sensíveis e confusas. Essa epidemia ajuda a alimentar a ideia de que as menores provocações fazem com que as mulheres libertem suas (loucas) emoções. Isso é falso e injusto. Acho que é hora de separar o comportamento sem consideração de manipulação emocional e começarmos a usar uma palavra fora de nosso vocabulário usual.

Quero introduzir um útil temo para identificar essas reações: "gaslaitear".

(pequeno adendo do editor: "gaslaitear" foi uma adaptação do termo gaslighting para o português, para facilitar a compreensão do texto)

Gaslaitear é um termo usado com frequência por profissionais da área de saúde mental (não sou um deles) para descrever comportamento manipulador usado para induzir pessoas a pensarem que suas reações são tão insanas que só podem estar malucas.

O termo vem do filme de 1944 da MGM, "Gaslight", estrelando Ingrid Bergman. O marido de Bergman no filme, interpretado por Charles Boyer, quer tomar sua fortuna. Ele se dá conta de que pode conseguir isso fazendo com que ela seja considerada insana e enviada para uma instituição mental. Para tanto, ele intencionalmente prepara as lâmpadas de gás (no inglês, "gaslights", vindo daí o nome do filme) de sua casa para ligarem e desligarem alternadamente.

E toda vez que Ingrid reage a isso, ele diz a ela que está vendo coisas.

Trailer do clássico filme que deu origem ao termo:


Nesse contexto, uma pessoa gaslaiteadora é alguém que apresenta informação falsa para alterar a percepção da vítima sobre si mesma.

Hoje, quando o termo é usado, usualmente significa que o perpetrador usou expressões como, "Você é tão estúpida" ou "Ninguém jamais vai te querer" para a vítima.

Essa é uma forma intencional e premeditada de gaslaitear, como as ações do personagem de Charles Boyer no filme Gaslight, no qual ele estrategicamente age para fazer com que sua esposa acredite estar confusa.

A forma de gaslaitear que estou apontando nem sempre é premeditada ou intencional, o que a torna pior, pois significa que todos nós, especialmente as mulheres, já tiveram que lidar com isso em algum momento.

Aqueles que gaslaiteaim criam reações – seja raiva, frustração, tristeza – na pessoa com quem estão interagindo. Então, quando essa pessoa reage, o gaslaiteador a faz sentir desconfortável e insegura por agir como se seus sentimentos fossem irracionais ou anormais.

* * *
Minha amiga Anna (todos os nomes trocados por questão de privacidade, claro) é casada com um homem que sente a necessidade de fazer observações não solicitadas e aleatórias sobre seu peso.

Sempre que ela fica brava ou frustrada com seus comentários insensíveis, ele responde da mesma maneira defensiva, "Você é tão sensível, estou só brincando".

Minha amiga Abbie trabalha para um homem que, quase todos os dias, acha um jeito de criticá-la, assim como a qualidade de seu trabalho. Observações como "Você não consegue fazer algo direito?" ou "Por que fui te contratar?" são comuns para ela. Seu chefe não tem dificuldade em demitir pessoas (o que faz regularmente), então seria difícil pensar, baseado nesses comentários, que Abbie trabalha pra ele há seis anos.

Mas toda vez que ela se posiciona e diz "Não me ajuda em nada quando você diz essas coisas", ela recebe a mesma resposta:
"Relaxa, você está exagerando."

É muito mais fácil manipular emocionalmente alguém que foi condicionado por nossa sociedade para tal. Nós continuamos a impor isso sobre as mulheres pelo simples fato de que elas não recusam nossos fardos. É a covardice suprema.

Abbie pensa que seu chefe está apenas sendo um babaca nesses momentos, mas a verdade é que ele está fazendo esses comentários para induzí-la a achar que suas reações não fazem sentido. E é exatamente esse tipo de manipulação que a faz sentir culpada por ser sensível e, como resultado, se recusar a deixar seu emprego.

Mas gaslaitear pode ser tão simples quanto alguém sorrindo e dizendo, "Você é tão sensível", para outra pessoa. Tal comentário pode soar inócuo, mas naquele contexto a pessoa está emitindo um julgamento sobre como a outra deveria se sentir.

Mesmo que lidar com gaslaitear não seja uma verdade universal para todas as mulheres, nós certamente conhecemos muitas delas que enfrentam isso no trabalho, em casa ou em seus relacionamentos.

E o ato de gaslaitear não afeta só mulheres inseguras. Até mesmo mulheres assertivas e confiantes estão vulneráveis. Por que?

Porque as mulheres suportam o peso da nossa neurose. É muito mais fácil para nós colocar nossos fardos emocionais nos ombros de nossas esposas, amigas, namoradas e empregadas, do que é impô-los nos ombros dos homens.

Quer gaslaitear seja consciente ou não, produz o mesmo resultado: torna algumas mulheres emocionalmente mudas.

Essas mulheres não conseguem expressar com clareza para seus esposos que o que é dito ou feito a elas as machuca. Elas não conseguem dizer a seus chefes que esse comportamento é desrespeitoso e as impede de trabalhar melhor. Elas não conseguem dizer a seus parentes que, quando eles são críticos, estão fazendo mais mal do que bem.

Quando essas mulheres recebem qualquer tipo de reprimenda por suas reações, tendem a deixar passar, pensando, "Esqueça, tá tudo bem."

Esse "esqueça" não significa apenas deixar um pensamento de lado, é ignorar a si mesma. Me parte o coração.

Não é de se admirar que algumas mulheres sejam inconscientemente passivas agressivas ao expressarem raiva, tristeza ou frustração. Por anos, têm se sujeitado a tanto abuso que nem conseguem mais se expressar de um modo que seja autêntico para elas.

Elas dizem "sinto muito" antes de darem sua opinião. Em um email ou mensagem de texto, colocam uma carinha feliz ao lado de uma questão ou preocupação séria, de modo a reduzir o impacto de expressarem seus verdadeiros sentimentos.

Você sabe como é: "Você está atrasado :) "

Essas são as mesmas mulheres que seguem em relacionamentos dos quais deveriam sair, que não seguem seus sonhos, que desistem da vida que gostariam de viver.

* * *

Desde que embarquei nessa auto-exploração feminista na minha vida e nas vidas das mulheres que conheço, esse conceito das mulheres como "loucas" tem de fato emergido como uma séria questão na sociedade e igualmente uma grande frustração para as mulheres em minha vida, de modo geral.

Desde o modo com que as mulheres são retratadas em reality shows a como nós condicionamos meninos e meninas a verem as mulheres, acabamos aceitando a ideia de que as mulheres são desequilibradas, indivíduos irracionais, especialmente em momentos de raiva e frustração.

Outro dia mesmo, em um vôo de São Francisco para Los Angeles, uma aeromoça que acabou me reconhecendo de outras viagens perguntou qual era minha profissão. Quando disse a ela que escrevo principalmente sobre mulheres, ela logo riu e perguntou, "Oh, sobre como somos malucas?".

Sua reação instintiva ao meu trabalho me deixou um bocado deprimido. Apesar de ter respondido como uma brincadeira, a pergunta dela não deixa de apontar um padrão sexista que atravessa todas as facetas da sociedade, sobre como homens veem as mulheres, o que impacta enormente como as mulheres enxergam a si mesmas.

Até onde sei, a epidemia de gaslaitear é parte da luta contra os obstáculos da desigualdade que as mulheres enfrentam. Gaslaitear rouba sua ferramenta mais forte: sua voz. Isso é algo que fazemos com elas todos dias, de diferentes modos.

Não acho que essa ideia de que as mulheres são "loucas" está baseada em algum tipo de conspiração massiva. Na verdade, acredito que está conectada à lenta e firme batida das mulheres sendo minadas e postas de lado, diariamente. E gaslaitear é uma das muitas razões pelas quais estamos lidando com essa construção pública das mulheres como "loucas".

Reconheço ter gaslaiteado minhas amigas no passado (mas nunca os amigos – surpresa, surpresa). É vergonhoso, mas fico feliz em ter me dado conta disso e cessado de agir dessa maneira.

Mesmo tomando responsabilidade por meus atos, acredito sim que, junto com outros homens, sou um produto de nosso condicionamento. E que ele nos dificulta admitir culpa e expor qualquer tipo de emoção.

Quando somos desencorajados de expressar nossas emoções em nossa infância e adolescência, isso faz com que muitos de nós sigam firmes em sua recusa de expressar arrependimento quando vemos alguém sofrendo por conta de nossas ações.

Quando estava escrevendo esse artigo, me lembrei de uma de minhas falas favoritas de Gloria Steinem:
"O primeiro problema para todos nós, homens e mulheres, não é aprender; mas sim desaprender."

Então, para muitos de nós, o assunto é primeiro desaprender como usar essas lâmpadas de gás (referência à origem do termo gaslighting/gaslaitear) e entender os sentimentos, opiniões e posições das mulheres em nossas vidas.

Pois a questão de gaslaitear não seria, em última instância, sobre nosso condicionamento em acreditar que as opiniões das mulheres não têm tanto peso quanto as nossas? Que o que elas têm a dizer e o que sentem não é tão legítimo quanto o que nós dizemos e sentimos?

* * *

Nota do editor: Yashar vai publicar em breve seu primeiro e-book, chamado "A message to women from a man: you are not crazy". Se estiver interessado e quiser ser notificado da publicação, insira seus dados aqui.

Esse post foi originalmente publicado no blog do Yashar, The Current Conscience. Nós lemos pela primeira vez no The Good Men Project. Tradução feita com permissão do autor.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

“Os ninguéns” - por Eduardo Galeano

Publicado por Maria Célia Becattini




As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chova ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano

Em “O Livro dos Abraços”.


Assista ao vídeo:

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

10 desenhos infantis que promovem a igualdade, por Paola Rodrigues

Publicado por Maria Célia Becattini

Paola Rodrigues é escritora, roteirista e mãe. Escreve nos blogs Cartas para Helena e Não Pule da Janela, onde discute temas que englobam a maternidade e sociedade.

Neste post ela discute a qualidade das produções infantis no universo dos desenhos animados. "Crianças merecem conteúdo de qualidade. Desenhos e filmes igualitários, longe de sexismo, que desenvolvam a criatividade e relações positivas", defende.

Para dar novas possibilidades às famílias, ela listou 10 desenhos infantis inteligentes que não misturam marcas com diversão.

Confira

1. O Show da Luna
Disponível no Youtube


Está é uma produção nacional, ponto positivo, que tem como protagonista uma menina chamada Luna, que é como toda criança: uma cientista. Ela, seu irmão Júpiter e o furão Cláudio – sim, como o Imperador Romano historiador e escritor – vivem aventuras para solucionar a maior questão do desenho “Porque isso está acontecendo?”.
Primeiro temos um desenho muito bem feito, tanto artisticamente, quanto em roteiro. Os diálogos são divertidos, os assuntos sempre muito interessantes, a ponto de que a família se reúne na sala para ver junto.
Em segundo, temos uma protagonista menina, que usa roupas normais, nada rosa, nada fofo, nenhum esteriótipo. Ela ama seu irmão e se aventura com ele. A família de Luna não só incentiva, como participa dos experimentos. As questões são reais e a argumentação é sempre muito bacana.
Um desenho que incentiva perguntas, descoberta e a real exploração do potencial infantil é sempre fantástico.

2. Que monstro te mordeu?
Veiculado pela TV Cultura com 50 episódios no canal do Youtube


Não é para crianças muito pequenas, já que sua temática é bem reflexiva.
Lali é uma menina meio monstro que foi convidada para o concurso Monstro do Universo por seu amigo Romeu Umbigo. E é nesse mundo cheio de monstros coloridos, um cenário maravilhoso, músicas originais e divertidas, que vemos Lali se deparando com sentimentos que podem transformar humanos em monstros quando não discutidos.
Na história temos temas como inveja e raiva, sempre abordado de forma muito lúdica e sincera.

3. Bino and Fino
Alguns episódios no Youtube



Este é um desenho produzido na Nigéria e que infelizmente não possui tradução ou legendas em português, mas a importância dele já se mostra exatamente por isso: conhecemos apenas uma versão da história do continente africano.
Uma escritora nigeriana Chimamanda Adichie falou certa vez em um palestra no TED sobre os perigos da história única, como somos apresentados sobre uma versão dos fatos e criamos esteriótipos perigosos. O desenho conta a história de dois irmãos que são criados pela avó e é um retrato muito colorido, divertido e inteligente do que [agora] é a realidade na Nigéria.

4. Charlie e Lola
Veiculado pela TV Cultura e disponível no Netflix



Lola é uma menina muito, muito energética e cheia de imaginação e, felizmente, possui um irmão carinhoso, que lhe ajuda a dar asas para suas histórias.
O mais legal é ver como eles constroem as histórias. Muito simples, muito doce e sempre com situações onde Charlie explica pacientemente coisas para Lola.

5. Milly e Molly
Alguns episódios estão no Youtube



Desenho produzido pela Discovery Kids é uma adaptação da obra da neozelandesa Gill Pittar.
É muito, muito raro encontrar desenhos cujo protagonista não seja branco. O erro é em fazer com que crianças vejam desenhos que não condizem com sua realidade. O mundo não possuí só uma cor, uma língua e uma forma de ver as coisas. Essa é a grande importância de buscar desenhos com diversidade e que respeitem isso de forma leal. Este é o caso. Milly e Molly vivem aventuras, mostram o valor da amizade, discutem assuntos sobre a vivência infantil, quando tantos sentimentos e problemas estão se apresentando pela primeira vez.

6. Meu amigãozão

Disponível no Netflix

Produzido por dois estúdios, um brasileiro e um canadense, o desenho tem uma arte impecável, um roteiro legal e histórias que ensinam o valor da amizade; passeia por questões como egoísmo e brincadeiras que não funcionam.
Yuri, o personagem principal, possuí o melhor amigãozão da história, um elefante azul gigante.

Cada personagem tem seu amigo e com eles vive aventuras, promovendo uma linda sensação de trabalho em equipe e de como podemos buscar experiências inusitadas em lugares óbvios.

7. Garota Supersábia
Vários episódios no Youtube


Rita Bastos (sim, ela é latina!) é uma super-heroína que combate os vilões dando uma aula de português. Uma menina latina, que se parece uma menina latina, o que é mais raro ainda, que caiu na Terra junto com seu macaco, O Capitão Caretas. Não bastante, os vilões tem nomes como: Doutor Cerebro de 30 Rato, Teodoro Tobias 3º e Dona Redundância.
É um desenho muito bem produzido, escrito, divertido, com sentido e a representação dos personagens e da heroína é fantástico.

8. Peg+Gato
Vários episódios no Youtube


Um desenho para crianças pequenas, que consegue conversar sobre números de forma didática e divertida. Usam a dinâmica de que aquilo poderia ter sido rabiscado por uma criança.

9. Inami

Veiculada na TV Cultura com alguns episódios no Youtube

Produção francesa que conta a a história de um jovem índio na Amazônia. O desenho não foca em relações familiares, que era o forte da cultura indígena. Mas, para pessoas que querem que os filhos tenham contato e apreciem um desenho divertido, Paola acha que é uma boa opção.

10. Tromba Trem
Veiculado pela TV Cultura



Mais um brasileiro para a lista, só que este tem uma das histórias mais bacanas que já vi [e tanto socialista, vá].
Gajah é um elefante indiano que se perdeu e vai parar na Floresta Amazônica. Sem memória, ele conhece uma tamanduá chamada Duda, que é super simpática e vegetariana. Depois de entrar numa disputa com uma colônia de cupins cuja Rainha tem certeza que é de Kapax, eles viajam pela América Latina.
Cada episódio se passa num país e é muito divertido. Em cada lugar tem um novo personagem, que caracteriza a cultura local e Duda é sempre muito doida.
Ok, eu fico vendo esse desenho. Me julgue.

TDAH – Carta de um aluno ao seu professor

Publicado por Maria Célia Becattini

Oibrigado por ler a minha carta.


Eu sou o aluno que normalmente não para quieto na carteira, ao que você pede muitas vezes que fique calado. E que, às vezes, quando você explica, entende antes que termine a explicação, mas, se tem que repetir, se aborrece. Às vezes, posso ser muito mal-educado ou explosivo para chamar a atenção. Eu gosto de falar de assuntos que você crê que não são para a minha idade. Você está sempre dizendo aos meus pais que não posso aprender, contudo, se algo me interessa, eu aprendo facilmente, mas, quando tenho suficientes conhecimentos, abandono por desinteresse. Não respondo à autoridade, mas sim ao entendimento e às explicações. Aprendo por imitação, seu exemplo é muito importante. Segundo você, sempre estou rompendo normas e criando umas novas. Sou um gênio “em potencial” que, se me centrasse em algo, seria o melhor…

Meus pais me levaram ao médico e disseram que tenho TDA-H, uma coisa chamada Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, e isso quer dizer que não paro quieto, não posso concentrar-me durante muito tempo, me distraio facilmente e, além do mais sou hiperativo.

O médico queria que eu tomasse Ritalina®. Minha mãe disse que isso nem pensar, que as anfetaminas somente criam drogados. Então, minha mãe pesquisou e faço coisas que coloco minha energia (esporte, artes marciais, Tai-chi, ioga) e ela evita me dar alimentos com açúcar 

e assim me sinto mais relaxado.

.

Não gosto que me tratem como uma criança pequena, apesar de que certas coisas eu sei menos, mas isso não significa que não sei, estou em processo. Se tivesse mais tempo para assimilar as coisas, aprenderia de forma diferente.

Se não aprendo de uma forma tradicional… por que me ensina sempre da mesma forma? E se fosse de uma forma mais prática? Estou perguntando sempre por quê? Isso não quer dizer que estou colocando você à prova, somente significa que tenho curiosidade.

Se não sabe a resposta, diga. Não tem problema! Só me ajude para que eu encontre a resposta. Gostaria que me incluísse nas decisões que me afetam, não sou simplesmente mais um aluno. Gostaria também que você reconhecesse que sou diferente, não que me classifique como diferente. Quando não posso me concentrar, faça alguma atividade diferente: um jogo, dê uma saidinha… mas não grite comigo.

Sei que, muitas vezes, se desespera em classe, p
ois simplesmente a ignoro.
Você tem se preocupado em saber o que acontece comigo?

Um abraço com amor
José Manuel

(Esta carta foi escrita por José Manuel Piedrafita Moreno, hoje educador e escritor do livro “Niños Indigo – Educar em la Nueva Vibración) in TDA-H da Teoria à Prática de Clarice Peres – RJ: Wak Editora, 2013.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Anoxia, hipoxia perinatal, neonatal versus autismo

Publicado por Renata Becattini




Tendo eu, há muitos anos, iniciado minhas pesquisas e luta para divulgar a anoxia e suas complicações, frequentemente, deparo-me com pessoas legais ou mesmo da área questionando minhas teorias e publicações. Em vista disso, fiz este capítulo totalmente técnico, porém, perfeitamente claro para qualquer leitor consiga assimilar. Friso bem que minha principal fonte é minha pesquisa de campo e no atendimento aos meus próprios pacientes, mas, como comprovo a seguir, não estou sozinha em minhas teorias e é bom que os profissionais acordem para o novo que não é tão novo assim e que merece atenção e, acima de tudo, respeito.

Falarei agora das comprovações em pesquisa desde 1971 até os dias de hoje, com os temas anoxia/ hipoxia perinatal/ neonatal e outras ocorrências durante ou logo após o parto como possíveis causas do autismo.

Lendo-se o manual de psiquiatria infantil, de Ajuriaguerra, na pag 701, encontra-se a descrição de autismo publicada por B.A. Ruttemberg (1971) que diz que: “ O autismo infantil é uma síndrome clinica, com alguns sintomas de base e uma variedade infinita de intensidades relativas e de variações secundárias. Ele considera atores etiológicos intrínsecos orgânicos (constitucionais e adquirido) e psicológicos ambientais como um continuum. Com um numero quase infinito de combinações possíveis, comportando, em um extremo, uma etiologia intrínseca completa e, no outro, uma etiologia completa ambiental. Ele acha útil dividir a etiologia autista em quatro grupos. Os dois primeiros corresponderiam a uma vulnerabilidade de pré-disposição, os dois últimos são secundários a um impacto ambiental.”

Na citação “b” desta descrição, lê-se o seguinte: “Vulnerabilidade congênita, muito mais geral e variada, devido a uma lesão intrauterina ou a um traumatismo obstétrico que tenha provocado disfunções ou distúrbios cerebrais.” Ainda que estas deficiências impliquem uma predisposição ao autismo e à vulnerabilidade, seu efeito pode aparecer bem cedo ou muito mais tarde, conforme o equilíbrio entre o estresse e o meio possa compensá-los. O detalhe importante é que traumatismo obstétrico, distócia e anoxia/hipóxia estão no mesmo nível, ou seja, estão sujeitos a ocorrência durante o parto e, para este autor, podem ser fatores desencadeantes para o autismo.

No manual de psiquiatria infantil, na pag 698, E.M. Ornitz e E.R.Ritvo (1968) dizem que: “A criança autista apresenta incapacidade para manter a Constancia da percepção, o que significa dizer que percepções idênticas, provindas do ambiente, não são experimentadas como sendo as mesmas a cada vez. Esta incapacidade tem por resultado, ao acaso, uma subcarga ou sobrecarga do sistema nervosos central.”

Esta enfermidade é, por excelência, a enfermidade do contato e da contaminação. É o exemplo mais significativo da relação neurológica que existe entre afetividade, contato corporal e comunicação. Esta função bloqueada no portador de autismo não é uma anomalia do córtex, como ocorre no caso de uma criança deficiente mental. É uma típica disfunção das estruturas límbico- hipotalâmicas, que são as fontes biológicas das emoções.

Francisco B. Assumpção, professor docente-livre do departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, psiquiatra da infância e da adolescência, professor livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP, professor associado do Instituto de Psicologia da USP e membro da Academia Paulista de Psicologia (cadeira 16) cita que: “ As causas do autismo são desconhecidas, mas diversas doenças neurológicas e/ou genéticas foram descritas com sintomas do autismo. Problemas cromossômicos, gênicos, metabólicos e mesmo doenças transmitidas/adquiridas durante a gestação, durante ou após o parto, podem estar associados diretamente ao autismo. Entre 75 a 80% das crianças autistas apresentam algum grau de retardo mental, que pode estar relacionado aos mais diversos fatores biológicos. Portanto, a evidencia de que o autismo tem suas causas em atores biológicos é indiscutível, fazendo-nos reconsiderar a ideia inicial de ligarmos o quadro de autismo a alterações nas primeiras relações entre mãe e filho.”

Em um numero monográfico sobre o autismo, a revista Archives os pediatrics & Adolescent Medicine publica vários estudos sobre os fatores de risco relacionados com o autismo: “ A privação de oxigênio durante o parto parece influenciar a sua vez a desencadear o autismo. Contudo, não está muito claro se está relacionado com fatores envolvidos nessa hipoxia, ou se a origem está na própria falta de oxigenação cerebral. Certas condições como a hipertenção maternal, a diabetes gestacional o nascer envolvido com cordão umbilical no pescoço (enforcado pelo cordão umbilical) podem intervir nesta relação de anoxia/ hipoxia.

Resultados: Sete estudos epidemiológicos foram identificados que preencheram os critérios de inclusão. As características dos pais associadas com um maior risco de autismo e desordens do espectro autista incluído a idade materna e paterna avançada e o local do nascimento da mãe fora da Europa ou da América do Norte. As condições obstétricas que surgiram como importante caíram em duas categorias: (1) peso ao nascer e duração da gestação e (2) a hipoxia intraparto.

Conclusões: As evidências que sugerem que a idade dos pais e obstétricas (hipoxia) são associadas com um maior risco de autismo e desordens do espectro do autismo

Fonte: Livro transtornos de comportamento e distúrbios de aprendizagem; Autor: Lou de Olivier

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Filhos especiais: como apresentá-los ao novo professor

Publicado por Maria Célia Becattini



As férias estão acabando! Começa um novo ano letivo e em breve seu filho será apresentado a um novo professor.

Como mãe de uma criança especial e professora, consigo ver os dois lados na adaptação de uma criança com necessidades especiais em uma nova turma. Embora todas as crianças tenham suas particularidades e nenhuma seja igual a outra, quem tem um filho especial sabe que ele precisará de um olhar diferenciado em alguns aspectos.
Procure conhecer a equipe pedagógica e o professor regente antes das aulas iniciarem para conversar sobre as peculiaridades de seu filho e os acompanhamentos médicos e terapêuticos que ele já realiza. Mas nem sempre é possível este primeiro contato com o professor, por isso vamos ao próximo ponto.
Escreva uma carta ao professor ou uma descrição em forma de tópicos sobre os aspectos que não estão evidentes, mas que ele precisará ficar atento. Seja claro e objetivo no que irá descrever. Não deixando de lado nenhum detalhe importante, porém, não se estendendo demais.

O que é importante o professor saber?
Diagnóstico (se a criança tiver um laudo preciso, o professor deve estar a par, caso tenha interesse em se aprofundar)
Uso de materiais diferenciados
Alimentação (restrições, dificuldades, etc)
Comunicação (como se comunica, grau de compreensão, etc)
Locomoção (limitações, equipamentos necessários, etc)
Receios, angústias, medos que ele possa ter
Medicamentos
Como é a utilização do banheiro pela criança
Como agir em situações específicas (crises nervosas, etc)
Dificuldades no processamento sensorial (auditivo, tátil, proprioceptivo, visual, etc)
Outras particularidades não comuns para a idade da criança (dificuldade para subir e descer escadas, pular, fragilidades, atrasos no desenvolvimento, etc)

Use exemplos do dia a dia para facilitar a compreensão de quem estiver lendo. Depois de pronta, é interessante que uma cópia da carta seja encaminhada para ser anexada à ficha da criança e outra seja colada na agenda para que o professor possa ter acesso diário, podendo consultar quando necessário. Durante o ano, coloque-se à disposição para esclarecer outras dúvidas que possam surgir e seja um pai/mãe presente.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Inclusão escolar de autistas: o papel do professor

Publicado por Maria Célia Becattini



A inclusão escolar de crianças com autismo no ensino regular depende de cada escola, como um todo, mas o professor tem um papel essencial. Conhecer o espectro e suas limitações é fundamental!

Apesar das características em comum, ligadas à comunicação, ao comportamento e à socialização, cada criança dentro do espectro é única, com necessidades educacionais específicas. O olhar atento e o engajamento do professor poderão garantir ao aluno um melhor aproveitamento no aprendizado escolar, além de contribuir para sua inclusão social.

Aqui vão algumas dicas a serem adotadas, que não garantem a total inclusão, mas contribuem significativamente:
Manter a sala organizada: as carteiras, os materiais, os livros. A criança com autismo já é superestimulada pelo ambiente naturalmente. A poluição visual pode dificultar ainda mais sua concentração.
Ensinar limites utilizando menos o “não” e mais o que deve ser feito. Ao invés de dizer “Não fique de pé!“, prefira “Agora é hora de sentar!“. Dizer “não” abre muitas possibilidades do que pode ser feito.
Estabeleça uma rotina semanal e a mantenha durante o ano todo. Deixe-a bem visível na sala de aula. É muito importante que a criança com autismo tenha essa previsibilidade do que irá acontecer. Então, tem-se a chegada, lanche, atividade, hora da história, parquinho, por exemplo, sempre nos mesmos horários. Quando for necessário fazer alterações nessa rotina, avisar com antecedência e mantê-la visível. (veja aqui algumas dicas sobre rotinas)
Barulhos, tumulto, excesso de informações, a necessidade de estar atento, estímulos externos, tudo isso junto pode deixar a criança irritada. O estresse pode levá-la a uma crise nervosa, por isso é muito importante estar atento aos sinais de que algo não vai bem. Pode ser necessário deixá-la um tempo sozinha, em um espaço silencioso e escuro, com poucos estímulos, até que se tranquilize.
Por falar em um tempo só, uma grande tendência nos autistas é se isolar, querer brincar e fazer atividades sozinhos. O que não significa que não devam ser convidados a participar das atividades. Geralmente gostam muito de participar junto!
Alguns possuem interesse específico em algum tema ou assunto. Você pode utilizar esse interesse para atrair e conquistar a criança, mas precisará motivá-la a se interessar por outros assuntos também.
Atenção ao bullying! Outras crianças podem achar diferente o modo da criança autista falar, se movimentar, fazer estereotipias, ser repetitivo… é muito importante estar atento para que não se torne alvo de piadas e discriminações.
Tenha o cuidado de chamar sempre a criança pelo nome e ter certeza de que ela está atenta. Ecolalia (ou repetição) não é sinônimo de compreensão. Algumas crianças apenas repetem algo que foi dito e pode parecer que compreenderam. Por exemplo: “Você quer bolacha ou maçã?“, e ela responde “Maçã!“, sem compreender o que foi solicitado. (veja aqui algumas dicas sobre ecolalia)
Se você perceber que a criança precisa de algum tipo de reforço ou ajuste pedagógico, converse com os pais. Estamos geralmente dispostos a cooperar.

Esteja certo de que nós, pais, buscamos uma parceria na educação. Qualquer dúvida (qualquer dúvida mesmo!), não deixe de nos perguntar, por mais que pareça algo sem importância.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Uma Lição de Discriminação

Publicado por Maria Célia Becattini

Uma professora dá uma aula sobre discriminação e se surpreende com a reação dos seus alunos durante o processo e depois no resultado.




Assista ao vídeo e veja que experiência interessante, que aprendizado!


quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Quatro mitos sobre Tecnologia e Educação que devem acabar em 2016

Publicado por Maria Célia Becattini

12/01/2016



Imagino que, como muitas pessoas, você tenha estabelecido algumas metas para este novo ano. Entre as minhas está a de continuar trabalhando para ajudar gestores escolares e educadores como você a melhorar a Educação do nosso país. Minha contribuição é por meio da tecnologia: acredito que, para promovermos uma formação de qualidade em larga escala e baixo custo, alinhada com as necessidades do aluno do século 21 e acessível para todos, é fundamental inovar e aproveitar as possibilidades que os recursos tecnológicos oferecem.

Para encorajar mais pessoas a abraçarem esse mesmo objetivo, decidi começar o ano desfazendo alguns mitos. Alguns professores encaram a inovação com desconfiança, e isso é compreensível. Todo tipo de mudança tem um quê de assustador, ainda mais quando impacta algo que existe da mesma forma há tanto tempo. Mas é possível que muito dessa desconfiança esteja fundamentada em ideias errôneas do que realmente está em jogo quando falamos de tecnologias educacionais. Aponto a seguir algumas delas – que podem estar presentes, em alguma medida, mesmo entre aqueles que defendem a inovação.

1. A tecnologia vai substituir o trabalho do professor
A tecnologia de fato tem extinguido muitas profissões, especialmente em fábricas e no campo. Mas o trabalho de um professor vai muito além de corrigir trabalhos e dar notas. Uma máquina nunca substituirá a sensibilidade, criatividade, capacidade de inspirar e de se conectar com os alunos. Quando falamos de tecnologias educacionais, estamos pensando em ferramentas que auxiliarão o trabalho do professor, livrando-o de tarefas burocráticas, por exemplo, e permitindo a ele ter tempo e subsídios para compreender melhor seus alunos, planejar aulas mais eficazes e ajudar no desenvolvimento de competências socioemocionais dos alunos.

2. Os dados vindos de recursos tecnológicos educacionais vão servir para avaliar o professor
Um aparelho de ressonância magnética pode fornecer informações tanto para ajudar a definir o tratamento adequado de um paciente quanto para mostrar se esse tratamento foi efetivo ou não. Esses dados não são usados para avaliar se um médico é bom ou ruim – para isso, nada é melhor do que a observação direta do trabalho, de como ele trata os pacientes. Com os “megadados” ou Big Data provindos de tecnologias educacionais é parecido. Os dados são um instrumento, e não um fim. Ao fornecer constantemente informações sobre domínio de temas e engajamento de uma turma, eles permitem entender melhor como os alunos aprendem, quais métodos e materiais são mais efetivos e como se pode pensar em atividades personalizadas para manter todos motivados, independentemente do nível de conhecimento do tema.

3. Colocar computadores ou softwares educacionais na escola vai garantir a melhoria no aprendizado dos alunos
A tecnologia pode melhorar o processo de ensino e aprendizagem de diversas formas, mas não é, em si mesma, a cura para os problemas da Educação. Mesmo as melhores ferramentas são ineficientes se não forem utilizadas de maneira adequada. É fundamental que a escola estabeleça objetivos e métodos claros para as tecnologias que decidir adotar, e também que promova a capacitação dos professores e lhes coloque à disposição um suporte técnico que possa resolver rapidamente eventuais problemas.

4. “Sou professor há muito tempo. Nunca vou conseguir me adaptar à tecnologia.”
Apesar de as novas gerações terem mais afinidade com a tecnologia, isso não quer dizer que não seja possível para os professores mais veteranos aprender a lidar com ela. Veja a história de uma professora chamada Valyncia O. Hawkins, de Washignton, nos Estados Unidos. De acordo com o site The Hechinger Report, ela decidiu, após 20 anos de profissão, estudar as possibilidades que a tecnologia lhe oferecia. O resultado? “Hoje, ela não mais fica em pé diante de uma sala durante uma aula inteira. Ela desenvolveu um novo estilo de ensinar que envolve a tecnologia e a instrução para pequenos grupos. Ferramentas online, a maioria delas gratuitas, ajudam-na a customizar as lições para os estudantes.” A história toda (em inglês) está aqui. Além disso, uma pesquisa feita pela Universidade Walden em 2009 com mais de 1.000 professores do Ensino Básico nos Estados Unidos concluiu que os profissionais veteranos são tão propensos quanto os mais novos a usar a tecnologia para apoiar o ensino. “Os mais jovens podem usá-la com mais frequência na vida pessoal, mas quando se trata do uso na sala de aula, eles não parecem ter nenhuma vantagem sobre os mais velhos”, diz o estudo. O importante é estar disposto a tentar coisas novas, ser persistente e não ter medo de pedir ajuda – e para isso não há idade.

Espero que, neste ano que começa, possamos ter discussões bastante ricas para ampliar nosso entendimento sobre as inúmeras possibilidades que a tecnologia provê para a Educação. Como sempre, sinta-se à vontade para compartilhar sua opinião na seção de comentários.

Um abraço,
Claudio Sassaki
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

5 hábitos que farão você feliz, segundo a neurociência

Publicado por Maria Célia Becattini

É possível usar música, exercícios físicos e até óculos escuros para ativar memórias ou estabelecer um sistema que faça seu cérebro e vocês mais felizes


06/01/2016 - 12H29 - POR ÉPOCA NEGÓCIOS ONLINE

(FOTO: ISTOCK)

Oque fará com que você seja feliz? O conceito de felicidade pode variar, mas para a neurociência, a pergunta é: o que fará seu cérebro ser feliz? Em um artigo para a Time, o jornalista Eric Barker conversou com Alex Korb, pesquisador com pós-doutorado em neurociência na Universidade da Califórnia e autor do livro “The Upward Spiral”. Korb cita cinco hábitos que poderiam fazer seu cérebro – e, consequentemente, você – feliz.

1.Ouça músicas da época mais feliz de sua vida

A música afeta o seu cérebro de uma forma interessante: é capaz de ativar memórias de lugares e situações em que você ouviu aquela canção. Se você foi muito feliz na infância ou na faculdade, basta ouvir a música que você mais gostava naquele período para ser transportado imediatamente para esse “lugar feliz” – afetando seu humor. “A música tem a habilidade de nos lembrar de ambientes nos quais ouvimos essa canção. Isso é feito por uma estrutura límbica chamada hipocampo, que é muito importante para o contexto da memória dependente”. Trocando em miúdos: ao ouvir uma canção, você se sente conectado ao momento em que era mais feliz e essa memória se torna mais presente em sua vida.


2. Sorria – e use óculos escuros

O cérebro nem sempre é tão “esperto” quanto parece: ao ser bombardeado por informações vindas de fontes diferentes, ele não se sente tão seguro e procura por “pistas”. Esse processo é chamado de “biofeedback”. “Trata-se da ideia de que seu cérebro está sempre ‘sentindo’ o que está acontecendo com seu corpo e revisando a informação para decidir como se sente em relação ao mundo”, diz Alex Korb. “Quando você se sente feliz, você sorri. Mas também funciona de outro jeito: quando você sorri, seu cérebro pode detectar isso e entender ‘Estou sorrindo. Isso quer dizer que estou feliz’”. Portanto, se estiver num daqueles dias difíceis, lembre-se: sorria, pois isso vai produzir felicidade. Pesquisas mostram que sorrir dá ao cérebro a mesma sensação de prazer que 2 mil barras de chocolate.

E essa história de óculos escuros? Em dias ensolarados, quando você está na rua, a tendência é franzir os olhos. O cérebro pode interpretar esse ato como “preocupação”. Ao usar óculos escuros, você ajudará seu cérebro a pensar que “está tudo bem”. “É uma maneira fácil e simples de interromper o processo do feedback. Então sorria. E use óculos escuros – eles vão fazer com que você pareça ‘cool’ e vão te fazer mais feliz”, diz o pesquisador Alex Korb.

3. Pensar sobre objetivos muda a forma como você vê o mundo

Quando você está estressado ou vive um momento difícil, pense sobre seus objetivos de longo prazo. Isso dará a seu cérebro a sensação de que está no “controle” e, portanto, vai liberar uma substância chamada dopamina, que fará você se sentir melhor e mais motivado. “Às vezes, quando temos a impressão de que tudo está dando errado, não é preciso mudar o mundo, basta mudar a forma como você percebe as coisas a seu redor para gerar um efeito positivo. Ao pensar ‘o que estou tentando alcançar com esta meta de longo prazo?’ Ao estabelecer essa linha de pensamento, fazer sua tarefa se torna recompensante, pois o cérebro entende que está trabalhando para chegar lá”, afirma Korb. “O cérebro percebe que o esforço é para atingir esse objetivo maior”.

4. Tenha uma boa noite de sono

Estresse, ansiedade e depressão são capazes de afetar o padrão de sono. Da mesma forma, “dormir mal” também causa depressão. Portanto, é importante garantir uma boa noite de sono. A neurociência tem várias dicas para isso: no meio do dia, saia do ambiente do escritório e vá para a rua ou para um parque a fim de se expor à luz do dia; da mesma forma, à noite, escolha um ambiente escuro e confortável. Estabelecer um “ritual” para o sono também ajuda o cérebro a se preparar para o repouso e o dia seguinte. Por isso, é bom evitar computadores e aparelhos de TV logo antes de dormir. Mais? Anotar em um caderno o que aconteceu de bom no dia ou coisas pelas quais você é grato em sua vida.

5. Como a neurociência pode vencer a procrastinação

Há três regiões no cérebro com as quais é preciso se preocupar: o córtex pré-frontal (que pensa em objetivos de longo prazo), o estriado dorsal (que considera coisas feitas no passado) e o núcleo accumbens (que nos leva a escolher as coisas mais divertidas, em vez de trabalhar). Portanto, quando você se esforça, o córtex pré-frontal se sobrepõe aos outros dois. Ao repetir o processo, você consegue estabelecer um padrão e construir bons hábitos. O que pode atrapalhar o processo? Estresse. “O estresse enfraquece o córtex pré-frontal”, diz Alex Korb.

“Essa parte do seu cérebro não possui recursos ilimitados, então não consegue ficar em alerta o tempo todo. E nisso o seu estriado vem com medidas para aliviar o estresse, como tomar uma cerveja, comer um biscoito”. Resumindo: para estabelecer bons hábitos, reduza o nível de estresse. E se estiver em um momento difícil no trabalho, encontre uma coisa para dar a partida no processo. Isso vai fazer com que se concentre melhor e evitará que o cérebro se “atrapalhe”. “O que eu poderia fazer para avançar em relação a meu objetivo? Dar um passo pequeno de cada vez pode tornar um grande projeto algo mais fácil de ser gerenciado”, explica Alex Korb.

E o que mais? Faça uma caminhada todas as manhãs pela rua ou num local aberto – de preferência acompanhado de um amigo. “Ao caminhar ao ar livre, você se expõe ao sol e colherá benefícios para dormir melhor à noite, além do impacto no sistema de produção de serotonina. Se fizer isso diariamente, esse hábito ficará gravado no seu estriado dorsal e se tornará um bom hábito. Se estiver acompanhado de um amigo, ainda melhor porque você tem o benefício da conexão social”, diz o pesquisador Alex Korb. E se o dia estiver bem ensolarado, vá de óculos escuros. E sorria.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Distimia, uma depressão crônica

Publicado por Maria Célia Becattini
Fãs da Psicanálise




Distimia é um tipo de depressão crônica, de moderada intensidade. Diferentemente da depressão que se instala de repente, a distimia não tem essa marca brusca de ruptura. O mau humor é constante. Os portadores do transtorno são pessoas de difícil relacionamento, com baixa autoestima e elevado senso de autocrítica. Estão sempre irritados, reclamando de tudo e só enxergam o lado negativo das coisas. Na maior parte das vezes, tudo fica por conta de sua personalidade e temperamento complicado.

Sintomas
O principal sintoma é a irritabilidade, mas existem outros:

* Mau humor;

* Baixa autoestima;

* Desânimo e tristeza;

* Predominância de pensamentos negativos;

* Alterações do apetite e do sono;

* Falta de energia para agir;

* Isolamento social;

* Tendência ao uso de drogas lícitas, ilicítas e de tranquilizantes.

Diagnóstico
O diagnóstico é eminentemente clínico. O dado mais importante a considerar é a manifestação dos sintomas durante pelo menos dois anos consecutivos.

Via de regra, os portadores de distimia desenvolvem concomitantemente episódios de depressão grave. Quando se recuperam, porém, retornam a um patamar de humor que está sempre abaixo do nível normal. A maior dificuldade é que raramente se dão conta do próprio problema. Acham que o mau humor, a falta de prazer e interesse pelas coisas e a tristeza que não dá trégua fazem parte de sua personalidade e do seu jeito de ver o mundo, e quase nunca procuram ajuda.

Diagnosticar o transtorno precocemente e introduzir o tratamento adequado é de extrema importância, uma vez que por volta de 15% a 20% dos pacientes tentam o suicídio.

Prevalência
A distimia pode aparecer na infância ou numa fase mais tardia da vida. O mais comum, porém, é que surja na adolescência. Há evidências de que muitos idosos já tinham manifestado sinais do transtorno na adolescência.

Na infância, acomete igualmente meninos e meninas. Depois, é mais prevalente nas mulheres do que nos homens.

Tratamento
A associação de medicamentos antidepressivos com psicoterapia tem apresentado bons resultados no tratamento da distimia. Isoladamente, um e outro não funcionam a contento. Embora os antidepressivos corrijam o distúrbio biológico, o paciente precisa aprender novas possibilidades de reagir e estabelecer relações inter-pessoais.

A psicoterapia sem respaldo farmacológico é contraproducente, porque cobra uma mudança de comportamento que a pessoa é incapaz de atingir por causa de sua limitação orgânica.

Recomendações
* Se você conhece alguém sempre de mau humor, irritado, pessimista, considere a possibilidade de que seja portador distimia, um distúrbio do humor para o qual existe tratamento, e tente convencê-lo a procurar assistência médica;

* Fique atento: a distimia, assim como a depressão clássica, pode acometer crianças e adolescentes. Às vezes, esses transtornos estão camuflados atrás do baixo rendimento escolar, do comportamento anti-social e do temperamento agressivo que não conseguem controlar;

* Se, nos últimos dois anos pelo menos, seus amigos e parentes têm comentando que você anda de cara amarrada, irritado, descontente com tudo e com todos, esteja certo de que isso não é normal, procure um médico;

* Não subestime os sintomas da distimia. Para aliviar os sintomas, é comum o paciente recorrer ao uso de drogas e de tranquilizantes. Em 15% a 20% dos casos, surge ideação suicida;

* Não se engane: não atribua ao envelhecimento, a casmurrice, o mau humor e as queixas do idoso que só reclama e não quer sair de casa. A distimia pode acometer pessoas na terceira idade;

* Mantenha a adesão ao tratamento farmacológico e à psicoterapia. Os medicamentos ajudam a corrigir o problema físico e a psicoterapia, a aprender novas formas de relacionamento.

(Autor: Drauzio Varella, médico cancerologista)

Leia mais: http://www.fasdapsicanalise.com.br/distimia-uma-depressao-cronica/#ixzz3wyl19ufn